Não conhecia o estudante que morreu no queimódromo e muito menos tive, na minha altura de estudante, alguma relação com a Federação Académica do Porto. Nem muita, nem nenhuma, aliás, detesto carneiradas e, não faz parte do meu feitio adorar federações, associações e outras coisas acabadas em ões. Esse tempo já passou.
Tenho lido as notícias acerca deste assunto. Umas deixam-me incrédula, as outras fazem-me rir. Como sempre, o Jornal de Notícias lidera, com bastantes pontos de avanço, o sensacionalismo da questão: quanto mais podres existirem, quanto mais chafurdarem na dor da família, quando mais derem o beliscão pelas costas, mais jornais se vendem, mais debates estapafúrdios se realizam, e quem os lê, vai esquecendo o que aconteceu. A notícia da morte do estudante vai ficando morna portanto, seguiremos para outro lado, até que não sobre mais nadinha para escarafunchar, bitaitar (de bitaites) e esgravatar.
Os pais falaram, a faculdade onde estudava Marlon também, o reitor da Universidade do Porto também, e a FAP também: e como era de prever uns pediam o cancelamento da queima das fitas, outros não.
Se fosse da minha família saberia bem o que pensar, mas não é. E não podemos cair em romanticismos e jurar que o faríamos, em qualquer situação, em qualquer altura, sob qualquer juramento e em todas as mentiras. Não podemos ser idiotas (ingénuos) e esperar que as opiniões sejam iguais e desatar a insultar quem não pensa o mesmo que nós. É só abrir a página criada ontem, onde se pede justiça pelo Marlon, no facebook, que os insultos, palavrões, erros ortográficos e idiotices saltam como pipocas.
Há duas coisas distintas: pensar com a razão ou sem ela (há ainda outra forma de pensar mas não é para aqui chamada) e todos os que frequentamos a queima, os que nunca foram e os que só ouviram falar, sabem que não se trata de umas noites em que um grupo de estudantes se decide juntar para beber uns copos, fumar umas coisas, e dançar até cair. Não é um encontro festivaleiro onde, por acaso, se ouve música, com bandas conhecidas e tudo. Não. E como seres pensantes todos sabemos que, por não ser uma festa na casa do vizinho, não pode ser cancelada. O último relatório de contas, no site da FAP, diz-nos isto mesmo: 1.980.000.00€ de despesas e 2.456.000.00€ de receitas. Não é propriamente o mesmo que dizer "esta pago eu, para a próxima ofereces tu".
Os que defendem o cancelamento da queima já devem ter desistido de ler o que escrevo, mas exactamente por não ser jornalista, não dever nada a ninguém, e por escrever o que penso, vou continuar a fazê-lo.
A queima não podia ser cancelada mas a FAP podia ter feito alguma coisinha mais. Uma música ao som do Marcelo D2 parece-me amoroso, mas não chega, ou melhor, não chegou. E não chegou porque a Queima das Fitas do Porto não é organizada pela Super Bock (se bem que já faltou mais): é organizada pela FAP e porque quem morreu, para além de fazer parte desta federação, era estudante.
E como gosto dos is com os seus devidos pontos fui dar uma espreitadela ao site da FAP. Confirmaram-se as minhas suspeitas (só me surpreenderam os erros ortográficos e as gafes): é mesmo um organismo pensado para os estudantes e, para que não digam que não sou justa, transcrevo as palavras "Esta instituição, com 22 anos de existência, é constituída por 27 associações, fiéis depositárias dos interesses dos seus estudantes, que são mais de 60.000." Diz ainda que "a FAP precisa de estar junto dos estudantes para que estes se identifiquem com a estrutura" e que "desafio, coragem, responsabilidade, presença, serviço... Estas são as forças que impulsionam o mandato de 2013 da FAP."
E porque disse acima que a queima não era um jantar em casa de uns amigos teimo aqui comigo que os órgãos desta instituição se deviam ter esforçado um bocadinho mais.
Mesmo que o lema desta festa seja "de estudantes, para estudantes" tenho sérias dificuldades que me continuem a convencer disso mesmo.