sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os incêndios

Nos últimos anos tenho feito um esforço, um esforço sincero, para não ser tão crítica. Para não ser tão crítica comigo mas principalmente com os outros. Esforço-me por encontrar motivos que levem pessoas diferentes de mim a tomarem decisões tão diferentes das minhas. Isto, posto deste modo, parece fácil. Ah e tal, todos somos diferentes, resultado do meio em que crescemos, da cultura que absorvemos, da educação que nos deram, das experiências que tivemos e da genética, ai genética. 
Mas não é fácil, pode ser um caminho longo e penoso desfazer preconceitos. 

E depois tenho o outro lado da moeda, o outro lado da história, a outra versão de mim mesma que quer sair aqui de dentro, como se fosse um monstrinho adormecido há anos. Uma outra versão da Ana, que julga, insulta, acalma-se tentando encontrar um motivo e quando encontra o motivo explode na mesma, numa incontinência de insultos típicos de quem não encontra lógica em argumentos que, por mais força que tenham, nunca terão um lugar na razão dos Homens. 

Tenho assistido, de longe, aos incêndios em Portugal. E, sinceramente, os milhares de hectares queimados não me tiram o sono, não são as árvores que demoraram anos a crescer que me preocupam, que me fazem assistir a isto de coração apertado. As condolências do primeiro ministro, do presidente da república e as fotografias no Facebook são pormenores. 
O que me encolhe, em mim mesma, são as pessoas. E eu sou uma pessoa de pessoas. São as pessoas que perdem as casas, que com as suas t-shirts tapam a boca e o nariz para tentar acalmar o gigante que quase lhes pode tirar tudo. São os velhinhos (desculpem-me, mas a palavra idoso, tira-me do sério) que obrigados a deixar tudo para trás, se perguntam porque é que já não têm a força do passado, que os deixaria pegar numa mangueira, num balde de água, em alguma coisa que os deixasse defender o que é deles, o resultado de toda uma vida que agora deveria ser de paz. 

E os bombeiros. E este "e os bombeiros" deve ser lido e transformado em algo gigante, muito maior do que eu, muito maior do que eu alguma vez poderia demonstrar em palavras. Os voluntários, os profissionais, tanto faz. 

Quando Passos Coelho foi ao Caramulo, disse qualquer coisa como agora não ser o momento para discutir o que está mal. E eu sinceramente não sei qual será a altura, mas a julgar pelo percurso meio zombie do nosso governo, iremos discutir os meios de combate aos incêndios lá para Dezembro, quando estivermos com as ruas intransitáveis, os rios a transbordar, e os bombeiros, mais uma vez, a perguntar porque é que são alvo dos cortes, desses cortes orçamentais que nunca ninguém percebe muito bem já que andam de mão dada com a saída em liberdade, dos detidos que vão acender a chama que todos os anos nos destroem. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Os touros atrás dos homens

Começa o verão em Espanha e com o calor os touros, touradas, corridas e idiotices por aí além. Nunca escondi que acho s-i-n-i-s-t-r-o tudo o que se relaciona com touradas, a minha tolerância só vai até aos forcados porque me parece justo, um frente a frente, com dois animais, num jogo sem inteligência, mas com força, perícia e alguma perspicácia. Mas se falarmos de toureiros em cima de cavalos, com coisas pontiagudas para espetar nos touros, roupas catitas, e peito feito, aí a história é outra. Não gosto, repugna-me e, por ironia do destino, vim parar ao país das touradas por excelência. 

Mas, já quase tendo perdido a esperança de me identificar minimamente com o desporto-divertimento-forma de vida-eh lá touro-, que os espanhóis tanto dignificam e defendem eis que há uma forma, no meio de tantas outras, que afinal me diverte, me faz rir e até acho alguma piada: os encierros (não sei como se traduz). São um costume, tanto por Espanha como na América Latina, e basicamente consiste num grupo de homens que corre (à frente, por trás e pelos lados) com uma manada de touros, o mais próximo possivel mas sem chegar a tocá-los. 

É fácil perceber porque me diverte e porque não mudo imediatamente de canal, que é o que faço normalmente quando sou premiada por imagens com touros e humanos. Aqui, nos encierros, animais e homens, estão lado a lado, durante um ou dois minutos, e correm - se correm - caem, uns magoam-se, outros ficam para trás, e quase nunca há feridos graves. Mas são as caras, dos homens, que acho deliciosas. Olham para trás, com os olhos arregalados, como se fugissem da sogra que acabou de descobrir que afinal não há genro perfeito para ninguém, ou da mulher, furiosa, que acabou de descobrir a marca de batom na camisa branquinha, imaculada. Quando não podem fugir mais, porque é isso que fazem, giram, rapidamente, para a esquerda ou para a direita, e enfiam-se numa cerca, que está ali para os proteger, dos touros que são obrigados a mostrar a sua imponência se alguém se atravessa no seu caminho. Faz-me lembrar a altura em que brincava às caçadinhas, havia sempre um sítio que era a casa, uma vez chegada aí, já ninguém me podia tocar para me apanhar. E é essa, exactamente essa, a cara dos corredores: cansados, cheios de adrenalina, quase gritam "CASA", não me podes tocar. 

Houvesse umas corridas assim, com os touros como políticos, e os corredores como políticos, e eu divertia-me bem mais a ver televisão. 


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Calor infernal

"Ligue o ar condicionado", "Não está a funcionar, minha senhora", "Então devia ter posto um papel na janela a dizer que não estava a funcionar para podermos decidir se entramos neste autocarro ou não", "Não temos ordens para fazer isso", "Incompetentes". - ar desesperado de quem vive neste mundo mas gostava de viver noutro.

Quando hoje entrei no autocarro e ouvi esta conversa, achei que estava num mundo paralelo. Achei que esta senhora estava num dia mau - acontece a todos - que tinha bebido água tónica com muito limão e sem Gin, que tinha um neto chatinho de quem ia tomar conta, que o marido lhe tinha dado um chuto no rabo há uns anos atrás ou que chegara o dia, o péssimo dia de pagar os impostos. Hacienda mia, hacienda tuya. 

Andamos descontentes. É entrar numa loja e ver as caras alegres de quem nos atende. Sim, não, talvez. Monossílabos. De todos os "bom dia" que solto, são poucos, quase nenhuns, que me respondem. Não conto com os grunhidos. Andamos descontentes. Chatos, chateados. Com a certeza que pode piorar, mesmo que não saibamos, mesmo que nem nos atrevamos a sonhar com um mundo pior, cheio de impostos, aumentos de preços, descidas de poder de compra, férias traduzidas em dias sem-nada-que-fazer-que-mais-valia-estar-a-trabalhar. 

Mas podia ter sido só o calor. Claro que podia ter sido só o calor. Andamos, por aqui, entre os 28 e os 40 graus. E chateia. Se chateia. 

sábado, 17 de agosto de 2013

Você tem noção, Judite

A página, no Facebook, Judite de Sousa - a vergonha do jornalismo, já conta com mais de 500 gostos. Durante o dia de hoje o meu mural encheu-se de protestos para todos os gostos e feitios. Uns contra, uns a favor e uns mais ou menos e naturalmente uns com os quais concordo e outros que roçam a mesma vergonha que Judite de Sousa me fez sentir. 

Depois de tanto zum zum tive que ir ver a tal entrevista a um tal Lorenzo que nunca tinha sequer ouvido falar na minha vida e não consegui parar de rir. Mas era aquele risinho nervoso, miúdinho igual ao que sentimos quando dizemos alguma coisa muito inconveniente. E cheguei à conclusão que venham, podem vir os Miguel Sousa Tavares e os palhaços adjuntos, que venham os apresentadores que afirmam que no Brasil se fala italiano, que venham, porque ainda nada me tinha feito sentir aquela vergonha miudinha. 

Ora, Judite de Sousa, jornalista portuguesa de renome, já teve, sentadas naquela cadeira, dezenas de pessoas, a quem deveria ter feito algumas perguntas cujas respostas me interessariam bem mais. Perguntas bem mais ao nível jornalístico que deveríamos ter e estar habituados. Mas na verdade é mais fácil tentar descredibilizar o cidadão comum, o que não se defende porque não sabe o que o espera, o que não combina as perguntas e respostas, o que não lhe emprega o filho-tio-primo e dá uma ajudinha, um empurrãozinho. 

sábado, 27 de julho de 2013

Tristeza, tratemo-nos por tu

Ontem acabei a noite triste. E tu, que lês isto, vais provavelmente dizer-me que nada merece a minha tristeza, que é só uma, só uma fase, que tenho que sair e distrair-me, que tenho que deitar a tristeza para trás das costas, que tenho que esquecer, fingir, nem sequer pensar muito no assunto. 
Que tenho que ir dançar, cantar, sorrir e fingir que abraço. 

Não. 
Porque a tristeza tem força, tem significado. Tem tanta força, tanto significado, importa tanto como os meus sorrisos, como os teus sorrisos, importa tanto como a felicidade, como a calma, importa tanto como o melhor momento da vida. Porque é também pela tristeza que cresço, porque é a tristeza tão legítima, tão verdadeira como a felicidade. Não preciso disfarçá-la nem tirar-lhe o ar, para que possa fingir que não está lá, que desaparece, que afinal foi só um engano, que afinal não estava triste. 

Prefiro enfrentá-la. À tristeza. Preciso dizer-lhe que venha, as vezes que quiser. Porque há dias assim, em que não quero dançar, cantar, sorrir e fingir que abraço. Porque há dias em que sorrio à minha tristeza e ficamos as duas, a pensar o que vamos fazer uma com a outra, sem mais ninguém, porque estaria esse alguém a mais. 
E sempre com o mesmo objectivo, esperar que passe em vez de a esconder, para que nunca me possa apanhar desprevenida.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Yo misma, por España

Dicen, por ahí, que los portugueses y los españoles tienen em si mismos todas las diferencias y las igualdades que caben en dos mundos. Dos mundos aparentemente tan distintos y que hacen, desde que estoy aquí, que busque aún mas diferencias y igualdades para que me pueda sentir parte de un sitio que, poco a poco, se va tornando mío.
En Cáritas, encontré todas las semejanzas, encontré en todos, especialmente en los niños, que no importa de donde venimos, quien somos. Lo que sí importa es lo que tenemos para dar, de corazón, detrás de un gesto, de un cariño, de una sonrisa. Son dos horas y media, casi todos los días, de juguetes, de tareas, de minutos desinteresados para que lo pasemos bien. Es esta la magia de Cáritas: todos estamos ahí, iguales, yo como parte de ellos y ellos como parte de mi.
Y son los niños, ciudadanos del mundo, que hacen, todos los días, poco a poco, que crezca, que vea que sí, que por su energía, por su simplicidad, por su entrega, merece la pena que esté aquí.


Tenho este país, que me escolheu, de luto

É impossível não escrever sobre o que se passou ontem na Galiza, em Santiago, no dia de Santiago. Um acidente impressionante, cheio de dor, cheio de tragédia, cheio de culpas. Um comboio que circula a 190 klm por hora numa zona que não podia ultrapassar os 90. 

As imagens, mesmo que de longe, pela televisão, são indescritíveis. Mas há, no meio de tudo isto, a parte a que nos agarramos, a parte que queremos que fique, mesmo que possa parecer a menos importante: doadores de sangue que fizeram filas de horas intermináveis para poderem ajudar e dar um bocadinho de si, vizinhos, que quase assistiram à tragédia, que romperam com as próprias mãos as janelas do comboio, hotéis que oferecem quartos para que as famílias possam descansar, médicos e enfermeiros que não precisaram ser chamados para ir para os hospitais. 

E é de facto nestes momentos, que não são nossos, que não são meus, que me enchem o peito de um nó, enorme, porque esta, esta vida, não é para sempre nossa. 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Deixem-me lá ser magra em paz

Vamos lá ver se a gente se entende porque de facto esta coisa de estarem sempre a dizer-me que estou muito magra começa a arrepiar-me os pelos da nuca e a chatear-me. E a verdade é que não ando por aí a soltar uns "ai, estás tão gorda, uma dietazinha ia bem, não?" ou "se fechares a boca pode ser que emagreças uns quilinhos, sua badocha".

Sempre fui magra, sempre. (Esquecendo os dois anos que deixei de fumar). Não faço dietas, não fecho a boca para-nada-de-nada. Como Nutella às colheres, como leite condensado sempre que me apetece, gelados, donuts ao pequeno almoço, ponho açúcar no café, e adoroooo brigadeiros. Mas não há quilo que me pegue. E isso não é, de maneira nenhuma, um decreto e portanto dispenso que me digam que estou magra. 

E não me venham com teorias, não me digam que ser magra é melhor que ser gorda, porque para as gordas é difícil emagrecer e para as magras é difícil engordar, as simple as that. Felizmente tenho uma mãe e um pai que me deram educação, que me ensinaram a calar quando quero que saia uma barbaridade pela boca fora. Mas também fui aprendendo que o que basta, basta. E portanto pode ser que da próxima vez que me digam que estou tãoooooo magra, possa "o" ou "a" ouvir o que não quer.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O que ninguém nos diz quando decidimos emigrar #1

1. Estar longe é isso mesmo, estar longe. E custa. Pa caraças.
2. Aprendemos a lidar connosco o tempo suficiente para nos perguntarmos, a nós mesmos, como é que os outros nos aguentavam tanto.
3. Não podemos estar quando os nossos precisam de nós.
4. Acabamos por jurar que vamos criar família e acabar os nossos dias na nossa querida terrinha.
5. Os políticos, governos, crises, são iguais aqui e aí.
6. O papel higiénico não aparece no sítio dele.
7. Fazer jantar todos os dias é um problema sério.
8. A roupa não se lava nem se passa a ela mesma.
8.1. Pensas duas vezes antes de pôres para o monte da roupa suja as calças que afinal não quiseste vestir de manhã.
9. Passas a dizer "a casa dos meus pais".

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Preferia não ter visto

Lexi Oliver Fretz deu à luz um bébé de 19 semanas. Claro está que viveu poucos minutos e que tem que ter sido um momento difícil. Não imagino o quanto. E este meu post não serve para falar da dor da mãe, do pai ou da restante família. Isso (a dor) tem que ser indescritível e impossível de escrever, pelo menos por mim. 

Mas a notícia (no Jornal de Notícias de hoje) não surge pelo bébé de 19 semanas, vamos lá ver, isto acontece muito, em mulheres à volta de todo o mundo, faz parte do lado mau da vida (e todas as outras teorias que queiram pensar). A notícia surge pelas fotografias que Lexi decide mostrar ao mundo e que aparecem neste blogue. São fotografias fortes, duras, e que, roçam o ridículo. Desculpem lá, mas não encontro outra forma de descrever isto.

Em primeiro lugar imagino que este seja um momento de intimidade, de família, de recolhimento. Mas isso dou de mão beijada; a internet veio pôr a nú o que nunca achamos que poderíamos assistir, mas assistimos. E mesmo que esta família queira dar importância ao que aconteceu através destas fotografias, mesmo que queira mostrar ao mundo que, às 19 semanas, um bébé já é um bébé, caíram em exagero. E que forma de exagero.

A primeira fotografia chegava: a mão do pai, da mãe e do bébé, pronto, feito, chega. Mas não, não chega, e portanto podemos ver as outras duas filhas com o bébé, a pegarem nele, e a verem, curiosas, suspeito eu que não percebem muito bem o que têm nas mãos. E alguém, por trás, meia distorcida, distraída com o telemóvel, como se fosse uma cena de um filme, sei lá de que género de filme. 

Não quero continuar a descrever as fotografias, porque me arrependi imediatamente de ter ido ao blogue. E de ter dado atenção a uma notícia do Jornal de Notícias, mas pronto, pelo menos já passou a parte má do dia; há sempre uma, em todos os dias.

Hora do chá com Jimmy Choo

Era um mundo ideal se eu pudesse: 

- apanhar um avião para Hong Kong

- ir directa aqui 



- fazer uma massagenzita 


- relaxar aqui 



- e lanchar ISTO, que não tem um aspecto do outro mundo mas vá... Quantas pessoas podem dizer que lancharam sapatos Jimmy Choo




quinta-feira, 11 de julho de 2013

Portugal, era, Portugal

Ultimamente ando sem vontade nenhuma de escrever sobre Portugal. Se o imagino tenho sempre a sensação de que anda perdido, cansado e sem força. É que a luz ao fundo do túnel é a luz que indica outro túnel. 

Saí daí sem lhe desejar nada de mal. Antes pelo contrário. Tenho dentro de Portugal família, amigos e pessoas a quem quero muito bem. Uns que sei que vinham embora, se pudessem, outros que não trocam o mar, as pessoas, o rio, os sotaques, o sol e a chuva por nada deste mundo. Como se Portugal fosse o perfeito imperfeito que sempre quisemos só para nós. Mas esse perfeito imperfeito está abandonado porque foi abandonado pelas gentes, pelas gentes que o fazem e que sempre o fizeram. 

Quem saiu, como eu, deixa-se levar, sem querer saber muito, sem discutir, sem vontade de indignação. Quem ficou, está morno, está preocupado consigo e vai vendo "no que isto vai dar". 

Ontem esperei, ansiosamente, pelo discurso de Cavaco Silva. E a internet bloqueou. De repente só via a imagem estática, no ecrã, com umas legendas quaisquer que agora mesmo não me lembro. Restou-me ler as notícias que iam actualizando conforme o PR ia falando. E claro, o resultado foi mais ou menos o esperado. Entendimentos, acordos, governo tri partido e tri partilhado. Uma solução morna, de quem deixa Portugal governar-se a si mesmo, mesmo que não seja uma pessoa, mesmo que seja um país, anímico, que espera a sua gente. 

Cavaco Silva não sabe ser pai, nunca soube. Deixou-se levar pelas birras, fez com que não tivessem importância. Preferiu que os três outros se entendessem, como se os tivesse fechado num quarto. E, se por acaso, isto acabar de pernas para o ar, a culpa nunca será sua, porque fez o melhor que podia. E fazer o melhor que podemos, quando esse melhor não existe, é o mesmo que que encolher os ombros e deixar andar. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

As carteiras que não são de mulher

Todas mas todas (esta todas é para ler com convicção, força, bem alto) as mulheres têm uma qualquer fixação por carteiras. A ser verdade, que o é, o lema de quando falamos de carteiras é sempre o mesmo: quantas mais, melhor, e quanto melhores, melhor. 

Há fases, é certo. Lembro-me quando uma só me chegava porque ainda tinha vergonha de usar carteira, nem sabia bem se era o que devia fazer. Nem sequer sabia o que enfiar lá para dentro: não tinha telemóvel, cartões, bilhete de identidade, nem sequer um batonzinho de cieiro para encher aquele espaço vazio. Nem sequer sabia o que fazer com ela (carteira) quando ia ao quarto de banho porque pendurá-la no puxador da porta ou no suporte do papel higiénico foram coisas que fui aprendendo com o tempo (senhores e senhoras por aí, donos de restaurantes, cinemas, cafés e todo o tipo de serviços, é favor colocarem um suportezinho para as nossas carteiras, é um bem necessário para o mulherio em geral). 
Sabia lá que, um dia mais tarde, andar com uma carteira ou com uma mala de porão ia ser mais ou menos o mesmo: pesada, cheia de coisas que provavelmente não irei usar mas que podem fazer falta. Been there, done that.

Dizia eu, todas temos uma obsessão, fixação, por carteiras e eu entendo as escolhas quase todas: as fluorescentes, as pequenas, as médias, as enormes, com flores, falsas, carérrimas, sei lá, é todo um mundo. Mas eu disse, aí em cima, que entendia as escolhas quase todas, não todas. E há uma que me intriga especialmente: quando vejo uma mulher, costuma dizer-se uma mulher feita, com uma carteira cheia de bonecadas: ou a Kitty, ou a Betty Boop, ou outra qualquer. Não importa se é gata, rata, ou um animal qualquer, importa que é uma mulher, feita, que escolheu sair de casa com uma carteira que pode muito bem ter surripiado do armário da filha, ou pior ainda, pode muito bem ter comprado a carteira e ter dito quando chegou a casa "Filha, olha o que comprei para nós". 
É quase tão mau como as crianças que agora usam biquini na praia sem saber muito bem onde é que encaixa cada bocado de tecido. 




segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sobramos nós

Começo a preocupar-me quando acho hilariante em vez preocupante. Qualquer que seja a situação, mesmo que seja pelo facto de ter, uma pulga atrás da orelha, que mexe tanto, mas tanto que não me deixa descansada. Há quem diga que somos os próximos, que vamos pelo mesmo caminho da Grécia, há quem diga que Portas tanto fez birra e largou ranho, que a vitória foi sua, e eu digo que não há vitórias depois da palhaçada à moda portuguesa, com tripas ou sem tripas. 

Se Portas decidir fazer mais uma birrinha com os que mandam nesta porcaria toda, vamos pelo caminho da Grécia, em modo comboinho; se decidir continuar com a polîtica de Gaspar, directamente patrocinada pelos manda chuva de preto e pela nova ministra, continuaremos em manifestações, greves, privatiza aqui e acolá. Até ver não houve vitórias e diz-me a tal pulga que não estamos sequer perto delas. E tenho a sensação que bem podíamos ter o país à venda que não haveria alminha nenhuma que o quisesse, a não ser Seguro, que tenta, e tenta e tenta.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Fungos, axilas e o Gaspar do meu jantar

Gosto de comer. Não sou nada esquisita quando o assunto é comida, seja de que tipo e feitio. Sou até uma pessoa bastante descomplicada no que toca a experimentar coisas novas. Mas detesto, detesto quando me estragam a refeição mais calma que tenho durante o dia: o jantar. E hoje, que estou com o meu humor pelas ruas da amargura, os estafermos dos anúncios, acordaram o meu mau feito e estragaram-me a porra do jantar. 

Não era nada de especial. Umas coisitas para picar. Entre elas, pasta de atum, cheia de ovo cozido ralado. E justamente quando dava uma trinca para acabar a última parte da tosta o desodorizante não-sei-o-quê decide explicar-se e dizer que actua na flora bacterial das axilas. Como se esta frase não fosse suficientemente conspurcada, ainda mostra centenas de axilas, centenas, como se fosse a despedida do cheiro das axilas de todo o mundo. Qual despedida de solteiro, qual quê, o que está a dar é a flora bacterial das axilas.

Respirei fundo e até consegui controlar bastante bem a minha imaginação que fugia para caminhos nunca antes navegados, como axilas que cheiram bem e axilas que cheiram mal a combater, desenfreadas, não fosse uma ou outra vigorar num mundo em que os desodorizantes deviam ser como os preservativos: oferecidos em todos os centros de saúde.

Dois segundos depois, DOIS SEGUNDOS, aparece-me o Dr. Scholl. E eu que hoje não fiz mal a ninguém. O Dr. Scholl anuncia o combate aos fungos. E MOSTRA o raio dos fungos em pés que só podem ser de outro mundo. 

O resto do meu jantar, esteve mais perto de ser atirado à parede do que ser guardado em papel transparente e posto no frigorifico, mas depois lembrei-me que, se o Gaspar se pode despedir e se as Swats não impedem a outra de ser promovida a ministra então o mais provável é que o jantar não me tenha caído assim tão mal pelos fungos e axilas.

sábado, 29 de junho de 2013

Inveja é coisa feia

Hoje é sábado e portanto, dia de devorar tudo o que são notícias nacionais e dar um olho ao que se passa lá fora. Tenho tido dias em que me chateio com algumas notícias, mas hoje, digo-vos, hoje foi dia de gargalhar até não poder mais. Há bom jornalismo em Portugal, é cada vez mais escasso, cada vez mais duvidoso mas lá vão aparecendo coisas que merecem ser lidas. Outras, nem tanto. E depois há a categoria seguinte: o tipo de jornalismo que me faz vir para aqui escrever porque quero - quero muito- que se riam, que gargalhem como eu.

Bem sei que o Correio da Manhã é sui generis, mas a verdade é que se não fosse lá espreitar, nunca veria coisas destas e consequentemente não as poderia partilhar. O que se passa é o seguinte, Sofia Rocha, no Estado de Sítio, decidiu opinar sobre as férias de Cristina Ferreira (apresentadora de televisão). O título é Cristina Ferreira foi de férias mas não devia e o vídeo é hilariante. Esta senhora, em primeiro lugar, só pode ter visto horas seguidas de programas com José Hermano Saraiva - com todo o respeito que lhe devo (a Hermano Saraiva porque a Sofia Costa ainda não decidi). É que não encontro outra explicação para a forma como fala e gesticula. Tem que ter sido um castigo qualquer, cruel e depois a coisa entranhou-se de tal maneira que não é possível não rir.

Discorre uns minutos (felizmente poucos) sobre o porquê de Cristina Ferreira não dever ir de férias, ou melhor, dever até deve, mas não para as ilhas gregas, porque a figura pública deve dar o exemplo e não ir gastar o seu dinheirinho para fora de Portugal. Say what? Dá até uns pequenos conselhos, porque ir com o seu dinheiro, depois dos impostos que deixa em Portugal, deveria estar fora de questão. Açores era a escolha acertada. Troquemos as ilhas gregas pela ilha dos Açores e assim já podemos ser uma figura pública consciente do papel que representa na sociedade portuguesa. Eu cá para mim acho que a apresentadora devia aproveitar e fazer as malinhas mais vezes, não vá o Gaspar lembrar-se de aumentar os impostos e taxar as contas chorudas dos bancos para ajudar a pagar a crise. 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O Brasil no mundo

No Brasil a coisa ficou preta e parece-me que está na hora da onça beber água, que é o mesmo que dizer que estão num momento decisivo. E justamente criaram esse momento, foram espertos. A esperteza brasileira deixou-nos a todos de boca aberta. Quero ver quem são os saloios agora. 

Segundo o The Economist (22 de Junho) estas são as maiores manifestações que se viram nas últimas duas décadas. Começou com o protesto do aumento dos transportes em 20 centavos e foi escalando por aí acima. Corrupção, educação, saúde, inflação e o custo do mundial de futebol do próximo ano em que o Brasil gastou, num só estádio 7 biliões de reais - três vezes o custo do mundial na África do Sul. 

Estão nas ruas, em todos os estados, justo agora que todo o mundo os está a ver: com a copa de confederações e o pensamento no ano que vem, no mundial. São estes, os brasileiros, que o mundo todo vê: no The New York Times, no El País, no The Guardian, no Clarín. Ontem, o The New York Times, publicou um artigo sobre a corrupção política, sobre a quantidade de pessoas que exercem o seu cargo no Parlamento mesmo depois de serem acusados por se envolverem em crimes. O total? 200, ou um terço dos que existem. É que até 2001 os políticos só podiam ser processados com a autorização do congresso.

Mas afinal o que se está mesmo a passar no Brasil? Já não importam os 20 centavos, já não importa o mundial ou os olímpicos, importa o que vem a seguir, o que vai acontecer em cada um dos lados: o dos que estão na rua e o do Estado. Esperamos para ver.



O pimento cá do sítio

Que se passa com este país? Maravilhoso no futebol, nos bares, nas tapas, nas gentes e do pior que há em água? E o café? Ai o café. 
A única explicação que encontro é que esta gente não bebe água, não pode, beber água, nem sequer sabem o que é água. Porque a água daqui sabe. E não devia saber. Inodora, incolor, blá, blá, blá. 

Quando vou almoçar ou jantar fora, desconfio que os empregados de mesa se riem de mim como se não houvesse amanhã. E têm por certo que os portugueses não batem bem da cabeça porque não, não se bebe água às refeições. E depois tiram-me logo a pinta quando chego e lhes peço manteiga. MANTEIGA. É vê-los a entreolharem-se para decidirem se eu existo mesmo ou se sou um ser caminhante do além. 

A saga continua. Vim viver para um país que põe pimento em tudo o que mexe, em tudo o que se come. E eu detesto pimento. O pão leva tomate e pimento. As azeitonas levam azeite, alho e pimento. As saladas levam tudo o que eu quiser que levem e pimento. Tudo tem pimento e eu só quero que o pimento esteja na paelha, tudo o que seja para além disso é pimentalhada a mais. É verdinho, vermelhão, pimentinho e pimentão. Que salgalhada.


domingo, 23 de junho de 2013

Bloglovin

E pronto, já lá estou.

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Meio meio

Nós somos a raça mais insatisfeita de todo o planeta. Ai somos, pois somos. Olhem só para mim, que sempre fiquei longe das agitações, porros e martelos de S. João e hoje mesmo nem me importava de fingir que tudo isso era espectacular. Dispensava as sardinhas mas as fêveras caíam que nem ginja. 

Sou daquelas pessoas que foge de multidões - isto deve-se à minha estatura que dá um jeitaço para umas coisas mas que, para confusões humanas, não é o melhorzinho que os meus pais me deram. Nem sequer posso culpar a genética, todos crescem e eu vejo-os a passar por mim. 

Continuando, insatisfeita. Pois somos. Estamos e devíamos estar noutro sítio, não estamos e queríamos estar. Estamos e se calhar até nem era preciso. Não estamos e precisávamos estar. 
Isto não é um síndrome portuga. É um síndrome humanóide. Eu queixo-me, é certo, mas quem-não-se-queixa?

E nem precisamos levar isto para o negativo. Ora vejamos: tenho um carro mas queria aquele, aquele outro. Pedi isto para o almoço mas o teu, é o teu que tem melhor aspecto. Comprei estes sapatos, mas são aqueles outros doze pares que eu queria (beicinho). E sobre o tempo? Acho que o tempo, se fosse uma pessoa, seria esquizofrénico e sofreria como um porco prestes a entrar no matadouro por tudo o que dizemos dele: "ai que frio", "ai que calor", "que saudades das botas" "nunca mais vem o calor", "não se aguenta o sol",  "nunca vivi um inverno como este", "o sol este ano está a queimar a sério", "já não chovia assim há anos". Esquizofrénico seria pouco.

E cada vez mais acho que fazemos isto de propósito. O que seria de nós se perguntássemos aí ao vizinho: "então, tudo bem?", e em vez de um: "vai-se andando", recebêssemos um efusivo, quase a roçar a loucura: "wassuuupppp? Tudo espectacular".
 
Deixaríamos de dar importância à insatisfação e passaríamos a tentar ser os mais felizes do mundo. Ou iguais uns aos outros mas mais felizes na mesma. Deixaríamos de parte o mais ou menos e passaríamos a querer ou o mais ou o menos. Esse meio meio deixava de interessar. Ou não?